"Por que fazer um show com um monte de teclados e equipamentos analógicos se o computador tem tudo?" por PAULO BETO
Em primeiro lugar isso não é verdade sobre o computador. Com ele é possível de se fazer algo interessante em termos de resultado sonoro e algo até mais radical/moderno em termos de programação e manipulação de sons concretos, mas nunca nada que se iguale a pureza e beleza do som sintético dos osciladores e filtros analógicos.
Mas não é nada disso que quero falar.
Nos dias de hoje não é apenas uma questão de busca da qualidade, é principalmente uma atitude contra a preguiça e vulgaridade que estamos nos tornando, escravos viciados do computador. Trabalhamos nele o dia todo, e depois, quando vamos relaxar, é nele que acabamos novamente.
Quero um ambiente diferente para criar meus trabalhos artísticos, não menos profissionais.
Além do que o computador e a internet estão gerando um mundo mais superficial, onde sendo uma fonte full time de consulta, ninguém precisa mais armazenar conhecimento em si.
Tá tudo lá... mas pra criar as referências devem estar em vc, assim como raízes.
Senão caímos no modo operante da publicidade, que tudo referencia mas na realidade é tudo um grande pastiche que será esquecido alguns meses depois.
Faço música eletrônica. Pra mim é muito importante ter contato com os equipamentos e métodos de produção em que sua linguagem foram criada.
Preciso conhecer as máquinas que produziam a música electrônica fantástica feita desde os anos 50, porque delas existem os clones digitais que a maioria tem acesso hoje.
Mas como eu disse logo no início, a diferença é grande.
Abdiquei de muita coisa e trabalhei muito pra conseguir ter umas boas maquinas analógicas de som maravilhosas. Umas feitas nos dias de hoje, outras originais de época, e até umas incríveis feitas em casa. Obvio que o digital tem muitas vantagens que somado a tecnologia analógica os resultados de hoje podem ser mais modernos e práticos de como era feito no passado.
A verdade é que, quando eu comecei a trabalhar e estudar música eletrônica no início dos anos 90, a última novidade da época e mais acessível era o sampler. Um pouco mais tarde juntei as características do sampler com o sequencer e, pronto, tinha todos os elementos básicos para se fazer música eletrônica.
Eu podia samplear sons acústicos e sons de sintetizadores analógicos, cujos timbres sempre me fascinaram desde criança. Eu tive sempre essa configuração.
Cheguei a somar um emulador digital da Roland, o JX-305 pra ter um synth com knobs e teclas pra um "ao vivo". Mas acabava q as bases eram sempre tocadas numa mixagem em CD ou MD.
Mas esse setup ainda convencia. Enfim chegaram os anos 2000 e a popularização do laptop mac e seus programas maravilhosos.
Se tornaram não apenas o meu estúdio, mas também meu setup de palco.
Aí eu passei a ser um cara atrás de laptop com um controlador M-Audio.
Dependendo do som, se fosse mais experimental, nem precisava do controlador. Ia com o mouse mesmo fazer minha cagadinha barulhenta e abstrata.
Fácil de carregar na mochila. Bom pra viajar. Ninguém poderia olhar pra mim e advinhar que eu era músico.
Uma vez fui fazer um som na casa de uma amiga Dinamarquesa lá em Barcelona.
Quando tirei meu equipo da bolsa ela riu muito na hora. Eu perguntei: "o que foi?" e ela disse: "seu equipo é exatamente igual ao meu". Imaginamos: "pro mundo todo o direcionamento é esse".
Bem, tudo isso pra dizer que estou tentando ir num caminho contrário ao "carinha atrás do laptop".
Dá muito mais trampo. Preciso de muito mais esforço físico.
Preciso quebrar a cabeça 100 vezes mais para programar ou simplesmente conectar tudo.
Mas acredito que o modus operandi anterior ao computador e ao sampler me faz muito mais feliz hoje. Mesmo com toda instabilidade de afinação e funcionamento do sistema MIDI.
Posso garantir para quem for no nosso show que, só de ver toda a tranqueira ligada e funcionando no palco já vai provocar um delicioso arrepio.
Não perca, e venha tentar entender tudo isso que estou falando.
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